O desenvolvimento da tecnologia está embasada sob as leis suíças de proteção de dados e direitos autorais e transparência.


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A Suíça anunciou nesta terça-feira (02), o seu novo modelo de inteligência artificial generativa como parte de um projeto ambicioso e inovador. Os Politécnicos Federais de Lausanne (EPFL) e de Zurique (ETH) e o Centro Suíço de Computação Científica (CSCS), em Lugano, anunciaram nesta terça-feira o Apertus, o primeiro grande modelo de linguagem suíço totalmente aberto e multilíngue.

O nome Apertus, que em latim significa “aberto”, é fruto de uma iniciativa conjunta apresentada em julho. O modelo já está disponível para pesquisadores, profissionais e especialistas do setor, que podem acessá-lo por meio de parceiros como a Swisscom ou baixá-lo diretamente na plataforma Hugging Face.

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Apelidado de “ChatGPT suíço”, o rótulo pode ser enganoso. Isso porque não se trata apenas de um chatbot, mas de um foundation model – um sistema de base sobre o qual terceiros podem desenvolver diferentes aplicações. Em outras palavras, ele funciona como uma matéria-prima pronta para ser transformada.

A Swisscom, por exemplo, usará o Apertus para disponibilizar um chatbot durante as Swiss{AI}weeks, evento que promoverá a inteligência artificial em toda a Confederação Helvética nas próximas semanas. O modelo, no entanto, também abre caminho para potenciais aplicações em áreas como medicina e direito.

Transparência como diferencial

A principal característica do Apertus é sua total transparência: todo o processo de desenvolvimento – incluindo arquitetura, pesos do modelo, dados de treinamento e procedimentos – está acessível e documentado. Isso o diferencia de outros modelos que compartilham apenas partes específicas de sua estrutura.

Modelo multilíngue

Treinado com 15 trilhões de tokens em mais de 1.000 idiomas, o Apertus contempla diversas línguas pouco representadas em grandes modelos, como o suíço-alemão e o romanche. Cerca de 40% dos dados de treinamento não estão em inglês, o que o torna pioneiro em termos de multilinguismo na IA.

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Na nota oficial que anuncia o lançamento, Martin Jaggi, professor de Machine Learning na EPFL e membro do comitê diretivo da Iniciativa Suíça para a IA, destacou: “com este lançamento, queremos oferecer um modelo de como desenvolver uma IA confiável, soberana e inclusiva”.

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Imagem: RSI/reprodução

Já Imanol Schlag, pesquisador da ETH Zurique e responsável técnico pelo projeto, afirmou que “o Apertus foi construído para o bem público. Ele está entre os poucos modelos linguísticos totalmente abertos dessa escala e é o primeiro a incorporar multilinguismo, transparência e conformidade como princípios fundamentais de design”.

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O modelo foi lançado sob a licença Apache 2.0, permitindo seu uso tanto em pesquisa e educação quanto em aplicações sociais e comerciais. Estão disponíveis duas versões: uma de 8 bilhões de parâmetros, adaptada para dispositivos domésticos, e outra de 70 bilhões, voltada a profissionais com maior poder computacional.

Legislação e ética

O desenvolvimento da tecnologia está embasada sob as leis suíças de proteção de dados e direitos autorais, bem como os requisitos de transparência previstos no AI Act da União Europeia. Foram observados ainda padrões de integridade e ética no uso dos dados.

Quanto ao futuro do projeto, Antoine Bosselut, professor e chefe do Laboratório de Processamento de Linguagem Natural da EPFL, frisou: “o lançamento do Apertus não é um ponto de chegada, mas o início de uma jornada — um compromisso de longo prazo com uma infraestrutura de IA aberta, confiável e soberana, para o bem público em todo o mundo”.

Versões futuras devem ampliar a família de modelos, melhorar a eficiência e explorar adaptações específicas em áreas como direito, clima, saúde e educação.

O que significa ser “aberto”?

Em entrevista à rádio suíça RSI, Maria Grazia Giuffreda, diretora associada do CSCS, explicou que “significa que os dados usados no treinamento são abertos e que todos os procedimentos estão documentados e publicados. A vantagem é que se trata de um modelo transparente, sem infrações de direitos autorais ou de normas legais, o que permite criar aplicações e depois disponibilizá-las ao público. Isso ajuda a gerar confiança. Não se trata da resposta suíça ao GPT ou a chatbots. É um modelo de base sobre o qual se constroem aplicações. Mesmo que o setor privado utilize esse modelo, não haverá grandes lucros diretos”.

Infraestrutura e energia

O Apertus foi desenvolvido no âmbito da Iniciativa Suíça para a IA, liderada pela EPFL e pela ETH Zurique, com apoio do CSCS. O supercomputador Alps, localizado em Lugano, foi essencial para o treinamento, que utilizou o equivalente a 60 bilhões de páginas de livros. O financiamento veio principalmente do Conselho dos Politécnicos Federais, com contribuições de parceiros estratégicos como a Swisscom.

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Em termos energéticos, o treinamento durou cerca de três meses, demandando 2,5 MW de potência (aproximadamente metade do consumo de uma locomotiva) e um total de 5 GWh de eletricidade – o equivalente ao consumo anual de 700 famílias que vivem em apartamentos médios com fogão e secadora elétricos.

Com informações: RSI, ETH Zurich, Engadget